Resumos do II Colóquio Brasileiro sobre Epicteto

Aldo Dinucci
Epicteto e os estoicos: uma ontologia da superfície

A partir de teses do pórtico, como a tinologia estoica, as categorias estoicas, a teoria estoica da causalidade, a teoria estoica do tônus e considerações deleuzianas presentes no segundo capítulo de A Lógica do Sentido, nos voltaremos sobre o teorema ontológico em Epicteto, procurando mostrar que há em Epicteto o que caracterizamos como um “o amor à superfície”, um “amor ao acontecimento”, que é expresso na metáfora epictetiana da  vida como um festival e pelo célebre capítulo 8 do Encheiridion.

André Constantino Yazbek
Michel Foucault leitor dos estoicos: a vida propriamente “filosófica”

Revisitado por Michel Foucault nos anos derradeiros de sua produção, o estoicismo evoca, na trajetória do pensamento foucaultiano, um movimento de retorno ao “logos” compreendido não como uma tarefa especulativa de conhecimento desta realidade metafísica que é a alma, mas sim como a atualização, sempre requerida e reposta, da retitude entre ação e discurso e da necessidade de conformação do “sujeito” à enunciação da verdade sobre si mesmo. Assim, o chamado “último Foucault” – que, em suas próprias palavras, pretendeu se ater ao estudo do tipo de “ato pelo qual o sujeito, dizendo a verdade, se manifesta” (aleturgia) –, voltava-se para os modos de enunciação do dizer-verdadeiro estoico e do conjunto de práticas de espiritualidade que o compõem, para divisar, na história de nossas relações com a verdade, o momento em que a filosofia, apresentando-se como “prova de vida”, requeria a elaboração de uma arte da existência ou, se quisermos, de uma vida propriamente “filosófica”. Neste sentido, pretendemos retornar à chave de leitura foucaultiana do estoicismo para nos perguntarmos, afinal, em que consiste uma filosofia que se põe como “verificação da vida” e “cuidado de si” e em que medida ela pode tornar-se, para nós, a ocasião de uma problematização das formas de vida e de pensamento modernas.

André Domingos dos Santos Alonso
Epicteto e Pseudo-Cebes: interseções

Epicteto, especialmente seu “Manual” (Ἐγχειρίδιον), com freqüência cruza, materialmente falando, os caminhos da “Tabula” do Pseudo-Cebes, seja em registro manuscrito, seja mais comumente em forma impressa. De fato, entre os séculos XVI e XVIII, várias edições publicam conjuntamente os dois textos, no original grego, em tradução latina ou em ambas as línguas, sem mencionar as traduções vernáculas. A “Tabula” conheceu durante esse período um grande sucesso, tendo sido utilizada, inclusive, como texto para a exercitação da língua grega. Testemunho disso é uma edição de 1662, na qual o texto grego é publicado com uma versão interlinear latina secundada por notas, acompanhado, na seqüência, de uma tradução francesa (ΚΕΒΗΤΟΣ ΘΗΒΑΙΟΥ ΠΙΝΑΞ CEBETIS THEBANI TABVLA. Cum interlineari versione & Grammaticâ singularum vocum explanatione nunquam antehac editâ. Acceßit eiusdem Tabulæ Gallica interpretatio. Lugduni, Apud Antonium Molin, e regione Colleg. SS. Trin. Soc. Iesu, MDCLXII). Tanto o “Manual” quanto a “Tabula”, além de outros textos de um viés filosófico sapiencial e prático, foram utilizados nesse período como clássicos para a edificação moral dos educandos, o que poderia explicar a constante edição conjunta. No entanto, para além dessa coexistência material, poderia haver um liame outro mais profundo, seja de natureza formal, seja quanto às doutrinas veiculadas? Em que medida Epicteto e o Pseudo-Cebes poderiam ser considerados como pertencentes à mesma vertente filosófica? Eis as questões de que trataremos em nosso trabalho.

Antônio Carlos Tarquínio
Eukharístia em Epicteto

A separação das propriedades das impropriedades é a fórmula da felicidade para Epicteto. Representa também a linha reguladora do traçado de um caminho que tem sua origem - ao menos no que tange às impropriedades – em Chrysipo, um dos fundadores da Stoá que o alforriado de Epafrodito segue e repercuti em suas lições.
Sem a defesa diligente e bem arrazoada de Chrysipo, em favor da existência atuante da Providência Divina no mundo - contra tudo e contra todos - não haveria provavelmente lugar na alma e no coração de Epicteto para a sua irrestrita quão incondicional gratidão aos deuses manifestada em grande parte de seus ensinamentos.
No fundo a notória distinção que está na base da filosofia estoica do expatriado de Roma estabelece dois tipos de racionalidade, a saber: a ratio essendi – a esfera das coisas que não dependem de nós, e a ratio cognoscendi – o âmbito das coisas que dependem de nós.

Carlos Enéas Moraes Lins da Silva
Notas sobre o pensamento político em Epicteto e Musonio Rufo

Neste trabalho procuramos revisitar a obra desses dois estoicos romanos da era imperial, histórica e textualmente identificados como mestre e discípulo, a fim de recolher elementos suficientes para esboçar alguma reflexão sobre a política, frequentemente voltada ao contexto da Roma imperial. Nesse cenário, fomos capazes de identificar significativas diferenças e aproximações que exporemos no decorrer do trabalho. Por ora, é mister dizer que como hipótese de trabalho sustentamos que Epicteto, ao contrário de Musonio, não parece se debruçar sobre a questão do que é um bom governante ou do bom governo, mas ambos estabelecem as possibilidades de liberdade e resistência frente às ações do tirano ou do mal governante.

Diogo Luz
O hábito na ética de Epicteto

Para Epicteto, o aprimoramento ético consiste não só na elaboração teórica, mas na aplicação prática de preceitos filosóficos. Nesse sentido, o progresso no caminho da sabedoria não ocorre somente pela capacidade de formular belos argumentos, mas é preciso que se esteja cada vez mais habituado àquilo que conduz à virtude. Considerando isso, o objetivo desta comunicação será (a) analisar a importância do hábito na ética epictetiana e (b) explicitar que tipo de hábito está implicado na sua filosofia.

Fernanda Oliveira
Um diálogo entre Epicteto e Foucault: o suicídio é uma fuga ou uma libertação?

Dentre os estereótipos frequentemente atribuídos aos estoicos está o da apologia ao suicídio. De fato, não há uma proibição ao suicídio no Estoicismo, especialmente em Epicteto, contudo esta apresentação pretende mostrar que não há também uma apologia ao suicídio. A partir da leitura da Hermenêutica do Sujeito de Foucault e da análise das Diatribes de Epicteto, em especial a Diatribe II.15, pretendo problematizar o tema do suicídio na filosofia epictetiana, apresentando os critérios pelos quais o suicídio pode ser realizado para que seja virtuoso. Com isso, é possível responder a pergunta que intitula esta comunicação: na filosofia epictetiana, o suicídio é uma fuga ou uma libertação?

Fernando Fontoura
Ética do bem viver em Epicteto: euroia ou o sereno fluxo de vida

A filosofia como modo de vida é matéria das escolas filosóficas antigas, tanto gregas quanto romanas. Para tanto, várias escolas filosóficas desenvolveram discursos para esclarecer e apoiar a prática filosófica. Essa é a ideia central de Pierre Hadot, filósofo francês que retoma a questão da filosofia como modo de vida e do qual partimos para o desenvolvimento dos argumentos em direção a uma ética do bem viver. Este trabalho de dissertação desenvolverá uma ética do bem viver específica do filósofo greco-romano Epicteto, que viveu no primeiro século de nossa era. A busca por um ideal de vida tinha como tópicos fundamentais as virtudes (aretai),  a felicidade (eudaimonia), o sereno fluxo de vida (euroia), a imperturbação da alma (ataraxia). Porém, a euroia será considerada aqui como o próprio objetivo da ética do bem viver de Epicteto, essa se desenvolvendo pelo exercício das virtudes. Para efetivar essa a ética do bem viver mostraremos a teoria da ação de Epicteto e as estruturas fundamentais para que ela se realize. Dentro da teoria da ação a proairesis é ponto fundamental onde a razão e a diferenciação entre aquilo que está em nosso poder (eph´hêmin) daquilo que não está em nosso poder (úk eph´hêmin) são de suma importância para o desenvolvimento de uma terapêutica de si em direção à euroia.

Luciano Torcione Serra
Sócrates e Epicteto

Ao consultarmos a reliquia socrática recentemente elaborada por Giannantoni, contendo todas as citações e referencias a Sócrates nos autores que lhe foram posteriores, encontraremos um número significativo de citações por Epiteto. Esta ligação entre Epiteto e Sócrates pode ser vista como Epiteto perfazendo um diálogo com Sócrates ou até mesmo uma continuação ou extensão do pensamento e da ação de Sócrates. Acompanhando as cuidadosas traduções realizadas pelo Prof. Dinucci, Julien e colegas, pode-se constatar, junto a outros estudiosos, que Epiteto conhece os diálogos platônicos e recolhe conforme a oportunidade as passagens que fará convir ao ponto de que trata eventualmente. Nosso estudo é uma apresentação desta relação sob a ótica da ação médica que delineamos em Sócrates num trabalho recente (Sócrates médico, 2016), ação esta que se deixa ver também em Epiteto. Será portanto um breve estudo sobre e relação estreita entre estes autores e os modos como a relação textual de ambos permitiu pensar a filosofia dentro de um escopo amplo comum à medicina, de aproximação não só a um saber, a um cuidar de si, mas a algo a que a filosofia foi num determinado momento referida: uma saúde da alma.

Marcus Reis Pinheiro
Sobre Páthos em Epicteto e logismoi em Evagrio Pôntico.

O objetivo desta comunicação é apresentar alguns elementos que configuram a teoria das emoções nos estoicos em geral e em Epicteto em particular e compará-los com a teoria dos maus pensamentos (logismoi) em Evágrio Pôntico.
As emoções (páthos) para os estoicos (Diogenes Laércio VII 110 – 117) tem origem em julgamentos de valor sobre as representações (phantasíai). Assim, defende-se que as emoções não são pulsões involuntárias e irracionais, mas são produtos de nossa liberdade em assentir ou não às representações que nos acorrem. Da mesma forma, em Epicteto, elas se apresentam como decorrência dos fatos que estão a nosso encargo (eph’hemin), especialmente por termos escolhido (proairesis) julgar tal ou tal representação de determinada forma.
Por outro lado, Evágrio Pôntico apresenta sua teoria sobre as emoções vinculada aos oito (maus) pensamentos, que mais tarde irão configurar os 7 pecados capitais. Os oito pensamentos acometem o monge para tentá-lo a abandonar sua ascese que é sua prática diária em busca de aproximação a Deus. Há toda uma catalogação e descrição dos demônios homônimos aos pensamentos que os incitam ao monge para persuadi-lo ao abandono da ascese. Evágrio nos propõe então certos exercícios, como por exemplo jogar os pensamentos uns contra os outros. Evágrio repete alguns aspectos importantes da filosofia de Epicteto, como a distinção entre fatos que estão sob nosso encargo e outros que não estão. No entanto, sua teoria sobre a origem das emoções e o seu correlato combate apresentam diferenças bem importantes.
  
Remo Mannarino
Epiteto e a divinização do sábio estoico

Um dos temas recorrente dos Discursos de Epiteto é o da “divinização” ou da “vida divina” do sábio estoico, na medida em que ele se integra na disposição que o próprio Deus tem diante do mundo. O propósito da nossa fala é o de explorar essa questão – sua natureza, seus pressupostos e suas consequências, a partir de uma análise textual das lições coletadas por Arriano. Para isso, será oportuno tratar dos precedentes filosóficos dessa noção, especialmente em Platão, e propor os termos de comparação com aquilo que, posteriormente, a mística cristã primitiva chamará de theosis, escrutinando os pontos de contato e de afastamento com a filosofia do pórtico. 

Valter Duarte Moreira Júnior
Exercícios

É conhecimento geral em filosofia o fato de que embora o estoicismo seja uma das escolas helênicas que exige de seus adeptos uma prática de exercícios que os conduza à virtude, não há uma lista de definida de exercícios. O objetivo dessa Comunicação é mostrar que, pelo contrário, há uma lista de exercícios estoicos que conduzem à virtude, usarei como fonte Epicteto.



Programação do II Colóquio Brasileiro sobre Epicteto


 

Comunicadores do II Colóquio Brasileiro sobre Epicteto

O II Colóquio sobre Epicteto contará com a participação de 14 comunicadores, de 8 Universidades, em 4 estados.

* Aldo Dinucci (UFS)
* André Constantino Yazbek (UFF)
* André Domingos dos Santos Alonso (UFF)
* Antônio Carlos Tarquínio (doutor pela PUC/SP)
* Carlos Enéas Moraes Lins da Silva (Mestrando UFS)
* Danilo Marcondes (PUC/RJ)
* Diogo Luz (Mestre pela PUC/RS)
* Fernanda Lopes de Oliveira (Mestranda pela UFF)
* Fernando Fontoura (Mestre pela PUC/RS)
* Luciano Torcione Serra (Mestrando UFRRJ)
* Marcus Reis Pinheiro (UFF)
* Remo Mannarino (PUC/RJ)
* Rodrigo Borges de Azevedo (CEFET)
* Valter Duarte Moreira Junior (UERJ)

1º Colóquio Brasileiro sobre Epicteto (UFS)


Da esquerda para a direita: William Piauí, Rodrigo Pinto de Brito, Aldo Dinucci, Diogo Luz, Fernando Fontoura, Antônio Tarquínio, Valter Duarte e Fernanda Oliveira.

DIA 18/02/2016

14 horas - Mesa Redonda (mediador: Aldo Dinucci)

  • Epicteto, ética, estoicismo (Carlos Enéas – Graduando - DFL/UFS)
  • Amizade e coragem em Epicteto (Valter Duarte – Mestrando - DFL/UFS)
  • O suicídio pode ser racionalmente justificado? (Fernanda Oliveira – Mestranda –UFF)
16 horas - Mesa Redonda (mediador: Alexandre Cabeceiras)
  • A arte do bem viver em Epicteto: uma abordagem ética (Fernando Fontoura - Mestrando - PUC/RS)
  • A liberdade em Epicteto - Diogo da Luz (Mestrando em Filosofia - PUC-RS)
Palestra:
  • O espectador imparcial de Adam Smith: eco do estoicismo (Marcos Balieiro - DFL/UFS)

DIA 19/02/2016

14 horas - Defesa de dissertação de Mestrado:
Notas sobre a lógica estoica (Valter Duarte - Mestrando em Filosofia - DFL/UFS)

Arguição de Antonio Tarquínio durante a defesa da dissertação de Valter Duarte.

16 horas - Mesa Redonda (mediador: Luís Márcio Nogueira)
  • Phantasia tracheia em Epicteto (Aldo Dinucci - DFL/UFS)
  • Convergências entre ceticismo e estoicismo enquanto filosofia práticas (Rodrigo Pinto de Brito - DFL/UFS)
19 horas - Mesa Redonda (mediador: Rodrigo Pinto de Brito)
  • Leibniz e o incomparável manual de Epicteto (William Piauí - DFL/UFS)
William Piauí à direita.

  •  Catarse em Epicteto (Antonio Carlos Tarquínio – Doutor em Filosofia pela PUC/SP)

Antonio Tarquínio em sua palestra.